Te peço pra ir, pra ficar com Deus, pra me deixar e deixar essa ideia maluca de sermos o que fomos. O menino em suas calças jeans, uniforme com medidas exatas - que mostravam uma genética exageradamente abençoada - e de sorriso debochado não é mais o mesmo.
Procuro sua vida e a voracidade em algum canto perdido em seu rosto. Creio que debaixo dessa barba por fazer. Vejo esses seus olhos fundos de duas noites sem dormir e o branco em seu nariz que me doe, tanto quanto deve doer inalar essa sua nova aventura. Te procuro em meus sorrisos e na saudade e nos cd’s e nos encontros propositais. Procuro toda a audácia que a inconsequência atropelou e a vontade de estar no seu colo. Vejo minha saia inundada com dores suas e braços cruzados dizendo que nada se pode fazer. Prefiro suas duras palavras e conclusões precipitadas a ver você se maltratando desse jeito, acredite.
Olho pro novembro e vejo um março inerte, incapaz, derrotado. Queria podia te tomar e cuidar, mas eu preciso cuidar de mim e desse amor errado. Não tenho como suportar esse estomago comprimido depois que me livrei das borboletas que o atormentava. Não posso dar esse passo em sua direção sem ferir a mim. Não posso ser mais do que eu sou. Não posso me abandonar, nem voltar atrás. O molhado no seu rosto me mata, mas eu não posso esquecer do quanto meu travesseiro me pediu pra parar. Eu ainda estou aqui, pronta pra falar com aquele cara. Pedir que ele proteja o meu menino desbocado, pedir pra que ele não tire o brilho que os seus olhos tem e que te traga de volta de onde você se escondeu. O carinho das minhas mãos sinta antes de dormir e lembre-se da minha existência quando insistir em deixar suas narinas opacas e o seu coração acelerado.
Seu passos eu já não sigo mais. Os seus sonhos já não são do meu adormecer. Seu número restrito, restringiu a vontade. Sua insanidade fez com que a minha loucura se cansasse. A razão de ser pra sempre foi detida pela sensatez. Você já não é o pôr-do-sol nem a música bonita do fone nos meus ouvidos. Não é a insonia nem a imaginação no travesseiro. Foi retirado de mim, assim como retiraram o cone que você atropelou - como tudo. Suas desculpas foram aceitas para que eu pudesse seguir serena.
Sim, você atou suas mãos e agora já não se pode fazer nada, mas o que esperar de muito brilhante de alguém que faz tanta pergunta retórica? Eu só espero que você não se torne o tempo perdido nem a memória engraçada. Que o nome do meu primeiro filho permaneça o mesmo, que novembro ainda seja o mês favorito, que o mar seja só meu e do meu futuro agora. Que o meu coração não pare quando por ventura eu escutar “heartless”, que não hajam feridas abertas e que as cicatrizes não me tragam lembranças amargas. Que a minha partida não tenha volta e que eu continue sem olhar para trás.
Você já não é a vontade de embriagar, de morrer, entregar. Deixe que eu me vá sem covardia, mania de não saber perder, jeito bobo de menino mimado. Você é igualzinho a mim: não sabe ouvir não, faz birra, cara feia, corre atras. Nos tropeços que a vida vai te dar - sempre da - talvez você se canse da falta de objetividade e se impacientei com romances conturbados e falta de paz. Quero pro meu coração sossego, quero pra lágrima inconveniente sentido, quero me contentar com algo a mais que suas palavras bonitas e cabíveis. Deixe com que o meu silencio impeça sua procura. Se vá. Adeus novembro, querido novembro. Permita que suas folhas caiam. Estou indo percorrer o ano inteiro agora.
Ando assim com ele, quase que encarnado. Eu tentando e ele fazendo cara de decepção quando eu me submeto a mensagens de saudade para uma saudade de iniciais estranhas. Eu derramando uma lágrima desnecessária e ele me mandando levantar, tomar um café e me recompor rapidamente. Eu tentando ser melhor e ele me dizendo o quanto eu sou incompetente em tentar, porque era para eu estar pronta. Eu olhando pra ele e ele com cara de frustrado. Eu fraquejando e ele me estendendo a mão com a arrogância que só ele tem, coração partido que tem. Eu pedindo pra ele não me deixar fazer bobagem e ele assentindo quase que freneticamente. Me dizendo pra não ligar, não ir, não feri-lo, com o cuidado que só ele tem. Levando esporro e ele me dando na cara. O ego no ego. O ego que só ele tem, me tem e eu o tenho. A vida me deu logo depois dos tapas na cara e dores, muitas delas. Intocável, irremediável, meu. Capa protetora e covarde que sabemos que somos e continuamos.
Não se encaixa. Não encaixa nos meus lugares, sentimentos e chamadas restritas. Não encaixa nos sonhos de menina de cabelos cacheados. Não encaixa na vontade de morrer aos poucos, de viver pra sempre, na felicidade que não cabe em mim. Não encaixa nas saídas noturnas, bares de sempre e vinho barato. Não encaixa nas minhas calcinhas novas, cama limpa e corte de cabelo diferente. Não encaixa no meu tempo, nas horas exatas, decisões cruéis. Não encaixa nas lágrimas no travesseiro, nas borboletas no estômago. No amor doído, nas pegadas na areia com o pensamento em nós. Não encaixa nos meus defeitos engraçados, música triste no fim do domingo e jantares. No desejo, no jeito, na franzida da testa. Não encaixa no eu, no meu, do que foi seu.
Acho que a vida me deixou meio assim… meio vazia, desesperançosa, escorregadia. Devo ter levado John Lennon muito a sério quando o assunto é liberdade. Sempre preferi estar aprisionada a uma paixão qualquer, desmedida e sem sentido do que sair voado sem rumo por ai. Depois de tanto tempo fazendo cortes em diagonal nos pulsos da minha alma, talvez eu tenha chegado a conclusão de que nada disso tenha me levado a lugar algum. Acho que aprendi com o mestre a amar a liberdade e devo estar sendo injusta por querer aprisiona-la dentro de mim - para sempre. Essa coisa de ser de alguém não deve ser mesmo para o meu bico e me perdoem os ex amores, pequei demais, mas amei a todos, garanto. Talvez eu tenha aceitado o fato de ser só, de caminhar só. Talvez o destino de toda moçoila boêmia seja mesmo esse. Prefiro a escravidão eterna da liberdade do que telefonemas às duas da manhã. Vejo uma boa amizade em quase tudo, ou melhor, em todos. Ser livre, caminhar sozinha rodeada de pessoas.